Opinião: Apoteose do absurdo
Rafael Caetano/TvTagarela

A passarela construida na parte baixa da Rocinha
Logo na entrada, a gigantesca estrutura de ferro e madeira- que se projeta de um lado a outro da Auto Estrada Lagoa Barra- encanta alguns e causa estranhamento para outros. Quando essa estrutura for desmontada veremos a nova passarela, desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer.l Ela trará uma grande escultura, similar a que existe na Passarela do Samba .
Segundo os entusiastas do projeto a passarela será “uma homenagem do artista para a comunidade da Rocinha e um marco da união entre morro e asfalto”. Na opinião de outros moradores, um grande desperdício de dinheiro público e um verdadeiro desrespeito com a comunidade.
A despeito das discordâncias o monumento está sendo finalizado e muito em breve será inaugurado. O absurdo nessa história é saber que dentro da Rocinha existem graves problemas que merecem a atenção e investimento por parte do Estado. O Indíce de Desenvolvimento Humano da Rocinha (IDH) está entre os quatro piores de toda a cidade. O que deveria ser prioridade é a ampliação de serviços públicos que reflitam diretamente na qualidade de vida da população local.
Arley Macedo/TvTagarela

Buracos atrapalham pedestres e veículos
Há muito se sabe que as obras realizadas pelos governos sempre reservam uma parte dos recursos para as famosas praças com seus brinquedos para as crianças e banquinhos para os idosos. Mas no caso Rocinha, além das pracinhas os moradores terão uma passarela com muito "valor artístico".
O que o fato mostra é que essa suposta união entre morro e asfalto atribui papéis bem definidos para as partes: o que é dado ao morro como presente de celebração é pago com dinheiro público. Em troca, nós aqui do morro, damos ao asfalto nossa resignação frente à imposição da estética sobre o funcionalismo de uma passarela.
Não há dúvidas quanto à importância do PAC para as comunidades, mas essas idéias, que para alguns parecem maravilhosas, deveriam ser amplamente discutidas com os moradores. Discutidas não em comitês formados por “lideranças" que mais parecem um braço político dos governos. Há muito a fiscalização da coisa pública foi esquecida e invertida em colaboração acrítica . A democracia mais uma vez sai ferida com essa postura.
Certamente Niemeyer não ficaria ofendido se ao invés de uma escultura na entrada da favela, todo aquele concreto fosse utilizado na construção de casas populares para os desabrigados do Labouriaux.
