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O Cristo do Morro

 

 Financiamento da produção cultural popular precisa ser aprimorado

                                                                                                                                                                                                    Rafael Caetano / Tvtagarela

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das cenas finais da peça encenada pelas ruas da Rocinha

 

  Os portões do andar superior da Capela Nossa Senhora Aparecida, no Largo do Boiadeiro, são abertos. De dentro saiem Maria, João Batista, Pilatos soldados romanos , homens e mulheres da Judéia. As construções improvisadas da favela  servem como cenário.O público que esperou desde o inicio da noite é tomado por curiosidade. As luzes são acessas no palco de madeira montado em frente à capela. João Batista prega nas águas do Mar Morto, velhos e jovens  querem o batizo. Não estamos de volta no tempo. É o espetáculo teatral “A Via Sacra da Rocinha” que começa.

  A peça é uma adaptação do livro “O Homem de Nazaré” de José Maria Rodrigues, e é encenada na noite de sexta-feira santa pelas ruas da comunidade, há 18 anos. Uma das atrações, para quem assiste, é a proximidade com os artistas. Em certos momentos atores e público se misturam, resgatando a tradição do teatro feito na rua onde ficção e realidade andam juntas.

 Um Jesus de tranças Nagô e com um figurino afro-brasileiro aparece no alto de um prédio no Largo do Boiadeiro. Com voz inflamada faz seu discurso contra o latifúndio, a exploração do homem pelo homem e a  injustiça. O Cristo da Rocinha faz uma opção pelos pobres. A reflexão despertada pela peça assusta os mais conservadores: Se Jesus Cristo vivesse no século XXI nasceria em uma favela carioca. Passaria por um calvário de violência policial, falta de saúde e saneamento básico. Aquela imagem do nazareno,  cabelos loiros e olhos verdes das obras renascentistas, é desconstruída ao longo da “Via-Sacra da Rocinha”.         

 João Batista Grita: “Sigam Jesus”  e uma multidão sobe as ruas do Largo do Boiadeiro para assistir o próximo ato encenado em outro lugar da comunidade. Nos últimos anos a encenação tem recebido um público cada vez maior. No dia da Via-Sacra turistas sobem as ladeiras da Estrada da Gávea sem os Jipes de turismo que cortam a comunidade durante a semana.

 Edvaldo Silva, 56 anos, vende algodão doce no dia da peça. Para  o ambulante a confusão e agitação se revertem em vendas: “O bom disso tudo é que posso ganhar um dinheiro na sexta santa hoje maior do que ganhava há um tempo atrás” . Fala o senhor Edvaldo Silva enquanto faz mais uma venda.

                                                                                                                 Rafael Caetano/ TvTagarela

 Após subir as ruas da favela cantando um funk Jesus é capturado e julgado na curva do S. Na cena da tortura uma moradora, aparentando já bastante idade, fecha os olhos com as mãos.

 Assim que ela os abre uma lagrima escorre pelo seu rosto. O teatro levado para perto dos moradores da Rocinha mostra que a arte é capaz de desperta a sensibilidade de formas inesperadas nas mais diversas classes sociais.

 O último censo feito na Rocinha realizado pela Secretaria do Estado

Moradores assistem atentamente à encenação

da Casa Civil em 2009 contabilizou 38.029 imóveis e 100.818 habitantes. Apesar de sua grande população, do seu comercio variado e da ampliação dos aparelhos públicos a comunidade não conta com nenhuma sala de teatro.        

 O Roça Caçacultura, que realiza há mais de uma década oficinas de teatro com moradores, é o grupo realizador da “Via Sacra da Rocinha”. Aurélio Mesquita, diretor do grupo e adaptador da peça , conta que já teve que fazer a peça usando figurino feito com papel de jornais velhos, devido à falta de políticas públicas que viabilizam produções culturais não lucrativas. A motivação do grupo, segundo ele, era levar a arte do teatro para perto do morador. 

 Na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem Jesus é crucificado sobre os olhares atentos da multidão. O termino da encenação se aproxima e o senhor Edvaldo Silva já não tem nenhum algodão doce para vender. Jesus ressuscita enquanto um grupo de bailarinos dança na porta da igreja. Após pedir para que seus discípulos saiam pelo mundo pregando sua mensagem Cristo desaparece. A imagem do Homem de Nazaré reaparece na torre do sino da igreja encerrando a apresentação com uma mensagem de esperança, seja na fé ou na arte.  

 

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